Carro-chefe
Enfim, o ano da consagração

A REVISTA WARM UP acompanhou de perto e traz todos os detalhes de como Rubens Barrichello viveu o fim de semana que voltou a lhe proporcionar o grito de ‘é campeão’: os erros e os acertos, o peso e o alívio, o filho que pergunta e antevê o título. E o pai que sorri

Evelyn Guimarães, de Curitiba

A consagração de Rubens Barrichello não passou por Suzuka ou Abu Dhabi, esteve longe de Indianápolis ou Fontana e nem mesmo foi no quintal de sua casa em Interlagos. Foi em Curitiba, num autódromo que por vezes foi dado com seus dias finais, que aconteceu a festa do primeiro título de um piloto que se faz conhecer e se conhece melhor para ser feliz na carreira e na vida.

A REVISTA WARM UP acompanhou os passos de Barrichello desde os primeiros treinos até a festa regada a champanhe — só não esteve no motorhome onde o piloto de 42 anos dormiu e ouviu, sonolento, a pergunta do filho mais velho na manhã da corrida: “E aí, pai, já se sente campeão?"

Rubens viajou para a capital paranaense — palco da prova decisiva da Stock Car e curiosamente onde também deu suas primeiras voltas com um carro da categoria, há dois anos — da mesma forma como fez em outras corridas deste ano. Não mudou a rotina, mas fez questão de trazer sua casa motorizada ao autódromo e lá ficar com a família durante todo o final de semana. Os filhos e a esposa Silvana desembarcaram somente na sexta-feira, depois da primeira atividade de pista. À RWUp, o piloto já dizia: “Eu cheguei da mesma forma, muito tranquilo, assim como estive em todas as outras provas da temporada”.

Durante toda a estadia em solo curitibano, o recordista de GPs disputados na F1 foi bastante assediado pelos fãs e também por quem trabalha na categoria nacional. Era sempre uma foto a mais, um aceno, uma conversa aqui e ali. A verdade é que Barrichello se tornou o protagonista da Stock Car em 2014, entregou-se ao campeonato, e agora apenas agradece por estar mais perto do público e especialmente da família.

Tão protagonista que, na tradicional eleição dos melhores do ano da RWUp, Barrichello foi o mais votado pelos leitores nas três categorias em que foi finalista: Melhor piloto de Endurance/Turismo/Rali, Melhor piloto que competiu no Brasil e Melhor piloto brasileiro.

Com o carro #111, Rubens Barrichello brilhou na Stock Car e alcançou o primeiro título em 23 anos

Foto: Miguel Costa Jr/Medley

Para o piloto, mais do que o reconhecimento, a experiência que vive na série brasileira é uma oportunidade de conhecer e de se conhecer. “Eu estou super feliz. E só tenho a agradecer, porque eu tenho uma carreira que começou aos seis anos e, com 42, ela continua tão competitiva quanto quando começou”, explica.

Um exemplo? “Eu adoro a visitação do povo aos boxes aqui da Stock. É o momento que eu tenho para o público e é também o tempo que público tem para mim. E é muito legal. É a forma que eu tenho de agradecer todo esse apoio que eles sempre me deram. Quando eu saí do Brasil, tinha só 16 anos, então não tenho ainda o conhecimento de alguns lugares. E eu quero ter. E a Stock Car está me proporcionando isso agora e é um grande barato”, completa.

A proximidade com os torcedores foi algo que agradou Barrichello durante todos os dias em Curitiba e também durante toda a temporada. A cada passagem, a massa retribuía o aceno com aplausos. Além desse novo cenário com os fãs, Rubens revela que outro aspecto da vida também dá o tom do momento que vive na carreira: a convivência com a família.

Barrichello exala entusiasmo ao falar da presença de seus filhos e de sua esposa na sequência de sua profissão. E isso vai muito além. Rubens usa a experiência no automobilismo para ensinar seus dois meninos, Eduardo, de 12 anos, e Fernando, de apenas oito – ambos, inclusive, já dão suas primeiras voltas nos kartódromos do país.

“As pistas são ótimas para quem gosta de velocidade, mas também é muito bom para educar os filhos”, afirma. “Se eu pudesse nomear dois dons meus, eu diria que um é o de guiar e outro é o de educar. Então, tudo aquilo que o meu pai me passou está sendo repassado. São as melhores horas.”

Barrichello até cita a influência das brincadeiras veladas em críticas. “Às vezes, eles dizem: ‘Ah, estão brincando que você não é rápido, que é lerdo’. Então eu respondo: ‘Olha para mim, filho. Olha no espelho, você acha que o papai é lerdo? Você acha que o papai, com 42 anos e que está lutando pelo campeonato da Stock Car, é lerdo?’ E eles respondem: ‘É, realmente é uma bobeira’.”

Vivendo e aprendendo

Barrichello é o mais recente garoto-propaganda da Vivo. Nas peças publicitárias, deixa-se ser chamado de lento quando contraposto à velocidade da internet. Rubens levou um cachê de aproximadamente R$ 400 mil para que “aceitasse” a piada, algo que não fez durante boa parte da carreira – quando foi estigmatizado por programas humorísticos como ‘Casseta & Planeta’ e ‘Pânico na TV’ ou até mesmo por comunidades na internet, que levaram o piloto a processar o Google. “Quem gosta de mim, entendeu a brincadeira, que foi algo muito bacana e divertido”, diz. “É para mostrar que auto-estima é tudo na vida.”

O campeão da Stock Car primeiro filosofa. “Você consegue construir um castelo. E eu me concentro na parte do lado do copo cheio”. E depois analisa sua performance, achando-se um bom ator. “O pessoal até perguntou como eu consegui fazer aquelas caras. O meu próximo passo seria uma novela ou um seriado”, brinca.

Diante de tudo, Barrichello reconhece que alcançou o que queria. “A minha intenção é fazer tudo com dignidade. Vão ter altos e baixos, mas a coisa mais importante é você se olhar no espelho e dizer: ‘Olha, está bom demais. É isso aí que queria dessa vida’”, acrescenta.

Com os filhos cada vez mais próximos do esporte, Rubens não pensa em parar tão cedo. E descreveu que o que sente pelo automobilismo é paixão. “Não paro de pensar em corrida”, admite.

Perguntado sobre até quando se vê dentro de um carro de corrida, o veterano evitou falar em data, mas deu a deixa. “O Ingo (Hoffmann) correu até os 55 ou 56, né?... Quando eu falei isso para a minha mulher, ela quase teve um ataque do coração. Ainda mais porque agora tem dois moleques correndo. E eu falei isso para eles: ‘Se vocês gostarem metade do que eu gosto, vão ter uma carreira muito longa. Para mim, é paixão. Quando eu vejo velocidade, essa sensação de sentar no carro, essa coisa da adaptação aos carros diferentes, aos novos projetos, essas coisas que acontecem... Na Stock Car, por exemplo, hoje eu já sento no carro, puxo o cinto, eu me sinto em casa. Para mim, é o grande barato”, conta. “A Stock Car é uma categoria competitiva e uma forma de continuar fazendo o que amo. O meu momento é ótimo.”

Duas passagens importantes demonstram. Mesmo emocionado com o título no domingo, com a festa e a recepção calorosa dos dois garotos ainda no pit-lane, foi no sábado, pouco antes da classificação, que o paulista viveu talvez o momento de maior emoção de todo o ano. Rubens se vê em uma fase também de renascimento.

“Quando eles estavam sentadinhos do lado do meu carro, antes da classificação, veio uma imagem minha, sentado, ainda pequeninho, almejando alguma coisa – sabe assim, sonhando com alguma coisa, e, de repente, bum!... Volta aquela cena, tipo como num filme. E aí voltou para mim, com 42 anos, com público gigante torcendo por mim”, relata. “E é como já falei: eu agradeço muito o tempo e o público de hoje, por estar me conhecendo agora. Todo dia é um dia de renascimento e hoje foi assim.”

Um outro ponto foi sentir a ansiedade da esposa. “Eu a coloquei para dormir com um deles e outro veio dormir comigo desde a sexta-feira. Na noite de sábado para domingo, quem dormiu comigo foi o Dudu. Quando a gente acordou, ele abriu um olho só e disse: ‘E aí, pai, já está se sentido campeão?’”, diz Barrichello, acrescentando que a relação com os filhos é “sensacional”. “E isso aconteceu com muita naturalidade.”

Eduardo chegou até a tentar ser pai do pai: “Ele tentou me cobrir, mas eu dei um tremelique e ele pensou: ‘Bom, melhor não mexer’. Isso aí, para mim, tem um valor pelo fato de que, não pelo campeonato, mas por esse momento ser um momento bonito de se ensinar, de participar. E realmente, depois de tudo que foi feito, passar com a caminhonete na frente desse público, com todos gritando e torcendo, mostra que tenho de ter orgulho de tudo que conquistei”.

Barrichello reuniu a família e a equipe para celebrar o título conquistado em Curitiba no fim de novembro

Foto: Duda Bairros/Vicar

O passo a passo do título

A pedido da REVISTA WARM UP, Barrichello também analisa o título, a campanha de 2014 e a própria experiência na Stock Car.

A conquista em Curitiba começou muito antes do campeonato deste ano. Para o paulista, o que o levou ao triunfo foram os aprendizados da temporada 2013, a primeira completa na categoria. “O ponto chave começa no ano passado, mas no sentido de que, no ano passado, eu errei bastante. E foram com esses erros que eu aprendi – erros de acerto do carro, principalmente. Ganha quem acerta mais, mas os erros de set-up, esses aí foram vários”, admite. Foram erros que “fizeram a diferença” e que culminaram na vitória da Corrida do Milhão, disputada em Goiânia. “Ali foi mesmo a chave de abrir o campeonato”, admite.

O título veio com o terceiro lugar na prova final em Curitiba, depois de ter saído da pole-position. Barrichello nem precisava ganhar e não dependia de uma combinação de resultados, como os demais sete adversários. Experiente e agora muito bem adaptado ao carro da categoria nacional, Rubens não arriscou e fez a lição de casa. Foi a primeira taça desde 1991, quando faturou a F3 Inglesa, aos 19 anos e ainda trilhando o caminho rumo à F1.

Na maior das categorias, Barrichello correu por 19 temporadas e viveu momentos dramáticos e polêmicos, mas também vitoriosos. Foi duas vezes vice-campeão, andou na Ferrari e na Williams, deixou a categoria quando não havia mais lugar, tentou de tudo para voltar para ter uma despedida oficial — e não deu certo. Foi buscar a vida na Indy. Ficou lá apenas um ano, e agora se vê novamente como um dos maiores nomes do esporte a motor no Brasil.

A conquista da categoria nacional foi admirável e terá um local destaque na ordem de importância, mas não será nem mais e nem menos que o restante da carreira.

“Todo momento da nossa vida precisa ter uma importância grande. Cada momento que a gente pode aprender, cada momento em que a gente pode ensinar... Eu passei momentos na F1... Por exemplo, em 2007 ou 2008, quando o carro da Honda era muito ruim, eu era uma das poucas pessoas que acreditava que alguma coisa boa poderia acontecer ainda. Aí um dia choveu tudo em Silverstone e eu fui o cara que escolheu os pneus certos na hora certa”, fala. “Eu sou um cara positivo e super para cima. Aqueles que acham que não é porque não me conhecem. Esse título é mais uma somatória de uma carreira de muito orgulho. Não é mais e não é menos, é uma somatória de uma carreira da qual é eu tenho muito orgulho e que começou muito cedo, passando pelo seu Rubão, depois o meu pai e eu. Eu tenho muito orgulho de ser o terceiro Rubens de uma família maravilhosa”, finaliza.

Tentativa de acerto de contas

Quando Rubens Barrichello perdeu a vaga para Bruno Senna na Williams em 2011, não havia mais espaço nas demais equipes para o veterano. Ele tentou, mas o grid não permitiu. Fora da F1 e sem uma despedida oficial, o brasileiro ganhou das mãos do amigo Tony Kanaan a chance de dar continuidade à carreira na Indy, por meio da média KV.

Os resultados demoraram e não foram os esperados. Mesmo frustrado, Rubens ainda quis insistir, mas viu que sua vida não estava nos EUA. Voltou ao Brasil ainda no fim de 2012, para dar as primeiras voltas na Stock Car. Pegou gosto e acertou uma vaga na Full Time, com o poderoso apoio da gigante farmacêutica Medley. Mas ainda restava acertar as contas com a F1. Ainda fora da categoria-mor e tentando aqui e ali, Barrichello assumiu o papel de repórter e comentarista da TV Globo para as corridas do Mundial. A experiência durou quase duas temporadas, mas a parceria foi desfeita depois do GP de Cingapura.

Sobrou, então, um convite. Rubens confirma à REVISTA WARM UP que foi convidado pela Caterham para correr em Interlagos, na penúltima etapa deste ano.

“A única coisa que precisa falar sobre isso é: quando um piloto recebe uma chance, quando é convidado para correr em frente ao povo dele, no Brasil, com tudo aquilo que aconteceu, em Interlagos, em frente à minha casa, eu duvido que alguém vá dizer não – por mais que a situação não seja competitiva. Eu fui convidado [pela Caterham] e era para correr em Interlagos”, afirma Barrichello.

Como se sabe, a iniciativa não foi levada adiante por conta da séria crise pela qual a equipe verde mergulhou nesta parte final da temporada, quando passou para as mãos de administradores legais e precisou ainda de uma vaquinha virtual para colocar seus dois carros no grid em Abu Dhabi, na prova derradeira de 2014. Ainda não está claro se o time terá condições de alinhar na próxima temporada.