O Automobilismo não é Tudo:
Para um bom amigo

Nunca conheci pessoalmente Rodrigo Manzano. Não sei exatamente como ficou a fronteira oficial para amizades depois das redes sociais, mas gosto de pensar que, sim, éramos amigos

FELIPE CORAZZA, de Pequim
unca conheci pessoalmente Rodrigo Manzano. Conheci, no entanto, o jornalista que usava o Twitter com o nome @senshosp, o Senshô. Amigo de outros amigos, acabou aparecendo na minha lista algumas vezes, sempre escrevendo coisas interessantes, espirituosas e, muitas vezes, ácidas. Não aquela acidez rasteira que todo mundo acha que tem, mas a acidez quase suave, se é que isso é possível. Enfim, era um baita perfil bom de se ler.

Acabei puxando papo com ele pela primeira vez em assuntos relacionados à China. Ele era fascinado pelo país e conversamos bastante sobre quase tudo que diz respeito ao Reino do Meio, onde morei por um tempo. Não sei exatamente como ficou a fronteira oficial para amizades depois das redes sociais, mas gosto de pensar que, sim, éramos amigos.

Nunca nos vimos e eu só fui descobrir quem era o autor do perfil há pouco tempo, mas era um bom amigo. Passamos a bater papo sobre outros temas diversos. Sempre prestava atenção às conversas culinárias dele com Dilma Vana, a presidente que jantava na casa dele quase todas as noites, mesmo que ela não soubesse disso.

Também acompanhava com afinco suas narrações de futebol, assunto do qual fazia questão de permanecer por fora e, justamente por isso, dominava com maestria, descrevendo os lances de acordo com o que via e sem qualquer compromisso com nomes de clubes e outras “bobagens” às quais damos tanta atenção. Era humor de primeira sem pretensão. Coisa rara.

Lembro também de ter dado parabéns quando ele, emocionado, postou uma foto da certidão de casamento com seu marido. Foi um dia de festa no Twitter, aquela comunidade mais maluca que a China, mas muito unida.

Também pelo Twitter soubemos todos, com apreensão, que uma cirurgia que o Senshô fez no mês passado teve complicações. Torcemos todos, muito, mas não deu. Nosso grande amigo e grande jornalista não circula mais por aqui, mas algumas pessoas estão para sempre em alguns lugares. Por uma ironia cortante, pousei em Pequim para uma viagem de trabalho pouco depois da morte do Rodrigo.

Não fiquei tanto tempo na China, dois dias ao todo, a caminho da Coreia do Norte. Quando soube que faria a viagem, uma das pessoas de quem lembrei foi justamente o Rodrigo. Seria sensacional ir até lá, voltar e contar pro camarada as impressões de Pyongyang. Mas ficou pra outra hora, quem sabe.

Aqui, em Nanluoguxiang, um dos poucos becos mais preservados da fúria imobiliária na área central da cidade, lugar que ele devia adorar, escrevo essa coluna. E ele está em Pequim. Está ao lado do marido. Está ao lado de todos os grandes amigos que acumulou na vida. Está por aí, cozinhando jantares que nem Dilma Vana conseguiria imaginar de tão bons.

Um abraço, Senshô Manzano. Obrigado por tudo.



Por falar em Dilma, essa história da presidente declarando seu respeito e admiração pelo ET de Varginha é fundamental para o espírito nacional. Um país que honra suas tradições é um país que tem futuro. Ou vocês vêem essa diferença toda entre o ET de Varginha e, sei lá, o príncipe Charles?



Outro ET dos mais relevantes para nosso espírito de época, o governador Geraldo Alckmin afirmou que o Estado é “vítima” no caso do esquemão milionário de propina e fraude em licitações de trens paulistas. Conta a do papagaio, agora, governador.



De todas as crueldades envolvidas no caso dos PMs assassinados na Vila Brasilândia, em São Paulo, uma das maiores é a verborragia do delegado que conduz as investigações. Desde o primeiro momento, o cidadão organiza suas coletivas de imprensa dando detalhes não confirmados, chutando hipóteses ao vento, dizendo um monte de “eu acho”. Deixa que isso a gente faz nas redes sociais, sêo delegado. Sua função é outra.



Impossibilitado de participar de movimentos “ninjas” de jornalismo não-remunerado, este modesto colunista gostaria de declarar seu apoio ao movimento “mídia sumô”, fundado por um amigo. Porque de engordar sem receber nada por isso eu entendo.
Foto: Arquivo Pessoal
 
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